Projeto de ciência cidadã com jovens ribeirinhos inicia novo ciclo no rio Madeira

Projeto de ciência cidadã com jovens ribeirinhos inicia novo ciclo no rio Madeira
abril 15, 2026 Gabriela Merizalderubio
15 de abril de 2026

Por Joshua Lacerda
Nota original da Ecoporé

A equipe técnica do projeto «Ciência Cidadã como ferramenta de pesquisa em escolas ribeirinhas» retomou as atividades em Rondônia neste mês de março. A iniciativa capacita estudantes voluntários de escolas públicas para atuarem como pesquisadores da pesca artesanal, monitorando o desembarque pesqueiro em suas próprias comunidades. Em 2026, o projeto expande sua atuação para incluir duas unidades de ensino na Resex do Lago do Cuniã.

Executado pela Ecoporé em parceria com o LIP/UNIR, o projeto integra o Programa Ciência Cidadã para a Amazônia, da Aliança Águas Amazônicas, com apoio da WCS e Fundação Moore.

Conservando la Cuenca Amazónica Aguas Amazonicas

A escola Juracy Lima Tavares, do distrito de São Carlos participa do projeto desde de 2021 (Foto: Acervo Ecoporé)

As águas amazônicas como estradas 

A dinâmica insere a ciência na rotina local: o jovem monitora o pescador de seu círculo social (pais, avós ou vizinhos), transformando o peixe que chega à mesa em dado científico. Nikolas Cintra, da equipe técnica, vê nos alunos protagonistas locais capazes de fortalecer a pesca e a conservação. «Vejo que isso pode ser uma forma eficaz de fortalecer a pesca nas comunidades», avalia.

Conservando la Cuenca Amazónica Aguas Amazonicas

Pescador no rio Madeira. Foto: © Ecoporé

Para alcançar as comunidades de Cujubim Grande, Jaci-Paraná, São Carlos, Nazaré e a Resex do Lago do Cuniã, a equipe enfrenta trajetos que alternam estradas de terra e longas travessias fluviais pelo rio Madeira.

O engajamento conta com o apoio de bolsas do programa «Jovem Cientista da Pesca Artesanal» (MPA/CNPq). A estudante Fernanda Oliveira, de Terra Caída, representou Rondônia no lançamento do novo edital em Brasília: «Podemos criar boas expectativas pelo fato de ter mais alunos interessados», projeta a jovem.

Ciência ribeirinha 

A ciência no «quintal de casa». O biólogo Felipe Lins, que acompanha alunos desde o início do ensino médio, destaca o impacto dessa imersão. Para ele, ter como objeto de pesquisa a realidade local gera um sentimento de pertencimento. «Eles começam a se perceber como ribeirinhos e a entender a magnitude do trabalho de seus próprios familiares. É uma sensação indescritível de orgulho», relata Lins.

Conservando la Cuenca Amazónica Aguas Amazonicas

Escola em Porto Velho. Foto: Ecoporé

O pesquisador detalha como o vocabulário e a percepção das famílias se transformam. Lins observou alunos, antes alheios à pesca, passarem a questionar mudanças no ecossistema: «Por que comemos menos branquinhas que antes?» ou «Nossa, eu não reparava qual espécie de peixe eu comia».

A produção científica acaba se fundindo à subsistência. Lins cita o exemplo de um aluno que, enquanto media um peixe com rigor metodológico, já conversava com a mãe sobre a produção de farinha do mês seguinte. 

Para a analista ambiental do projeto, Dayana Catâneo, o engajamento começa quando o jovem compreende o privilégio de ter o rio Madeira no quintal de casa. Ao mapear as espécies e a importância da pesca para a subsistência local, o estudante ressignifica seu entorno. «Eles passam a valorizar o conhecimento tradicional de suas próprias comunidades. O projeto aproxima a ciência da realidade deles», sintetiza Dayana.

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